O Bhagavad-Gita, a princípio, constituía uma seção do Livro Sexto do poema épico hindu, o Mahabharata. Está lançado em forma de palestra entre o guerreiro Arjuna e seu cocheiro, que em verdade era o “Senhor Abençoado”, o deus Krishna. Tornara-se inevitável a guerra entre os filhos de Pandu (e Arjuna era um dêles) e os seus primos Duryodhana e irmãos, filhos do rei cego Kurus. A batalha estava iminente quando Arjuna se recusou a combater, pois percebeu que ia matar os próprios parentes. O deus Krishna explicou-lhe que ninguém podia ser morto, porque as almas dos homens vivem para sempre. Daí começa a palestra que, estendendo-se por dezoito capítulos, abrange fase por fase os problemas éticos e religiosos referentes ao Yoga da ação, à justificação de rituais e sacrifícios, às manifestações de Deus no mundo físico, e termina com o importante preceito que manda aceitar Krishna como um refúgio a que devem recorrer, para encontrar paz e salvação, todos os indivíduos de tôdas as classes. Ao velho rei cego, que não podia observar o desenvolvi- mento da luta, um grande sábio ofereceu vista, que êle recusou, pois não sentia desejo de assistir à matança de pessoas do seu sangue. O grande sábio, então, assegurou a Sanjaya o dom de perceber à distância os acontecimentos desenrolados no campo de batalha. Assim, sobretudo no início e no fim do canto, vemos os comentários de Sanjaya sôbre o combate, enquanto que as perguntas e respostas entre Arjuna e Krishna formam a substância do corpo principal do livro.

Tôda essa obra respira a atmosfera mental e religiosa hindu, embora alguns ensinamentos (como o do entusiasmo na ação, que deve ser praticada sem intenção de lucro egoístico, mas por devoção a Deus, e particularmente o preceito da negação do materialismo e a vigorosa afirmação védica de que o espírito se acha por detrás de tôdas as coisas), embora ensinamentos dêste gênero ofereçam pontos de vista que ou são atuais ou de que se necessita grandemente no mundo moderno. De qualquer modo, os contrastes são tão importantes como as semelhanças, e é porque êsse trabalho se impõe, frisantemente, como o produto mais relevante do espírito religioso hindu, que a sua influência e posição na Índia tem sido tão grandes. O Dr. E. J. Thomas chamou-o de “um dos maiores fenômenos religiosos do mundo” e de “o mais antigo e ainda o maior monumento da religião hindu”