Um museu de arte asiática não é como os demais. Uma atmosfera estranha surpreende o visitante desde a sua entrada neste recinto da espiritualidade plástica oriental. Tudo é diferente, singular, inexplicável. Transposta a porta da entrada, um cheiro forte desconhecido, indefinível, invade ó curioso: o sândalo das velhas e preciosas madeiras das estátuas, o incenso que impregna duma maneira indefinível muitos objetos expostos, os embriagadores perfumes dos tecidos, das peles, dos manuscritos sobre folhas de palma, das pequenas aras portáteis do Extremo Oriente, dos objetos de culto gastos pelo tempo e das vestes dos monges. O mundo profano está fora; penetramos no domínio do asiático. Sabemos que algumas vocações de orientalistas despertaram nas suas visitas a tais museus.
A estranha sensação continua e cresce mesmo, à medida que o visitante percorre as salas. Uma singular impressão o surpreende diante das estátuas hieráticas, suspensas num gesto de contemplação e de prece; uma paz profunda emana destas representações de madeira e de pedra, cujo rosto tranqüilo e sorridente parece olhar para dentro. Encontramo-nos muito longe dos museus de antiguidades clássicas, dessa arte greco-romana de belos corpos divinos animados, dos Laocoontes, dos Hermes, das Afrodites, dos deuses e deusas do Olimpo. Na arte oriental está ausente o gesto humano do esforço, mesmo nas cenas cômicas; e se aparece, é um sinal apenas esboçado de prece, de oferenda, de louvor ou de ensinamento.
O visitante sente rapidamente as grandes constantes, as normas estéticas da arte que o rodeia: é uma arte hierática, na qual a desnaturalização das formas – as suas transformações a partir de uma forma prévia mais ou menos naturalista – visa alcançar a figuração de um ser estranho que já não é humano, mas que ainda conserva uma aparência corporal. Um deus com dez braços, um elefante com corpo de homem, uma cobra de múltiplas cabeças que cobre como um imenso capuz um buda meditativo, pássaros com rostos humanos, espíritos que voam sem dificuldade pelo espaço, um homem-deus que agüenta com um dedo uma montanha arborizada, um homem-macaco entrando no céu, um imortal minúsculo que sai dum bloco de jade, um búfalo caído do qual brota um titã que adora a deusa que acaba de o matar … Estranha galeria de formas de homens e animais, de figuras de sonho, de sinais sagrados, de entidades desconhecidas e estranhas que constituem símbolos hieróglifos carregados dum denso significado.