O mestre passa seu último dia de vida envolto em uma colcha costurada pela esposa, sua respiração rascante e irregular dominando o espaço exíguo do quartinho. Ao longo daquele dia frio de primavera, um fluxo de visitantes deságua na pequena cidade de Yanshi, no sopé das montanhas Song, para render homenagem a Yang Guiwu em seu leito de morte.

Ele é o homem que lhes ensinou o kung fu. Alguns envergam hábitos de monge e distribuem bênçãos ao entrar na casinha de tijolos. A mulher do mestre, de cabelo branco bem penteado, espalma os ombros de cada recém-chegado como se fosse um irmão de sangue e o admite cozinha adentro, para além do fogareiro de brasas ardentes, para se juntar aos familiares e outros discípulos reunidos ao pé da cama de seu marido.

A esposa debruça-se sobre ele para anunciar um visitante especial, o último discípulo que o mestre acolheu no âmbito de sua família kung fu, 15 anos antes. “É Hu Zhengsheng”, diz ela. De abrigo esportivo e calçando as tradicionais sapatilhas de pano, Hu, hoje um espadaúdo homem de 33 anos, inclina-se sobre a criatura encarquilhada. “Shifu”, fala ele baixinho, respeitoso, empregando o termo mandarim para “professor”. “O senhor está me ouvindo?” Pálidas e finas feito papel de arroz, as pálpebras do velhinho tremem. Por um instante, suas pupilas parecem se fixar no rosto do jovem, antes de se dispersarem.